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Nem prevenção, nem remédio

11/05/2004 12:00

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Vem da sabedoria popular o ensinamento de que o melhor remédio é a prevenção. Vale tanto para a mãe que evita o resfriado do filho ao chamá-lo para casa diante da chuva iminente, quanto para um Governo que, sabendo da fragilidade da agricultura diante das intempéries climáticas, institui um sistema de seguro agrícola que protege as lavouras. Raciocínio simples, lógico até, que em 1999 levou o Governo do Estado a investir na criação de um mecanismo que protegesse as lavouras do Rio Grande das secas e das enchentes.

Tal como o filho que, sem imaginar as conseqüências dolorosas de um resfriado, reivindica à mãe uma hora a mais para a brincadeira na rua, o seguro agrícola gaúcho também sofreu resistências irresponsáveis. Os anais do Legislativo registram, inclusive, discursos de parlamentares que duvidavam da capacidade do Governo de fazer o seguro.

Mas governo bom é feito mãe zelosa: não descuida dos seus, mesmo que para isso, precise enfrentar o mundo. E apesar dos agouros e das dificuldades econômicas, o Governo criou, ainda em 1999, o Sistema Estadual de Seguro Agrícola que, diga-se, era um compromisso do PT. E o que antes era alvo de promessas de sucessivos candidatos a governador, depois de realizado virou alvo de críticas dos opositores. O próprio governador Rigotto chegou a dizer, num debate de campanha, que o Seguro Agrícola praticamente não existia porque sua abrangência era ínfima. Heresia para o agricultor que no ano anterior perdera a lavoura por causa da seca e fora ressarcido pela seguradora. Mas até aí, tudo ficava por conta da disputa eleitoral.

No plano concreto, Rigotto venceu a eleição e agora, com um ano e meio de governo e com uma estiagem terrível arrasando plantações em centenas de municípios, tudo o que ele tem para nos mostrar é uma redução de quase metade do número de lavouras protegidas pelo Sistema Estadual Seguro Agrícola. Sim, ao final de 2002 o Rio Grande contabilizava 38 mil agricultores segurados. Hoje, são pouco mais de 20 mil, ou seja, 18 mil a menos. Faltou vontade política ao governo Rigotto. Faltou o incentivo financeiro que se traduz em subsídio de boa parte do seguro e que estimula, efetivamente, os agricultores a procurarem o benefício.

Para quem dizia, apesar dos 38 mil contratos, que o seguro não existia, o que dirá o governador agora, ao constatar que em sua gestão, o que ele considerava nada ficou ainda menor? Que não se diga, contudo, que Rigotto é incoerente. A ajuda que o Estado ofereceu aos agricultores prejudicados pela estiagem deste ano, é tão ínfima quanto o número de contratos de seguro agrícola de seu governo.

Perigoso é o governante que despreza a sabedoria popular e opta pelo comportamento da mãe desnaturada. O risco é o resfriado do filho que, sem prevenção, sequer agora pode contar com um remédio que alivie seu mal estar.

(*)Deputado Estadual (PT/RS),vice-líder da Bancada do PT na Assembléia Legislativa

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