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A longa noite dos pecuaristas

04/06/2004 12:00

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Os pecuaristas gaúchos que estão perdendo o sono ainda não podem recorrer ao mais tradicional método de combate à insônia: contar animais. Continua proibido contar bois e vacas no Estado, deduz-se mais uma vez das recentes afirmações de lideranças dos sindicatos do patronato rural ligado à Farsul que criticam a implantação do programa de identificação e rastreamento do rebanho.

Em 2000, a proposta de recontagem desses animais surgiu durante o trabalho de extinção dos focos de febre aftosa. Técnicos constataram aquilo que já se formulara como hipótese, isto é, a existência de um rebanho clandestino no Rio Grande do Sul, de tamanho não desprezível. Sua principal característica é a intensa movimentação, inclusive através de contrabando de outros países. Este rebanho coloca o Estado em situação de risco permanente de doenças contagiosas, além de causar prejuízos fiscais, em virtude da sonegação, e à saúde, em razão dos abates sem inspeção sanitária. Isto foi confirmado pela CPI das Carnes, concluída em 2003.

Algumas lideranças ruralistas parecem confusas, talvez por cansaço e falta de sono. Querem medidas técnicas rigorosas para aumentar a participação no mercado internacional, mas tratam as idéias de aperfeiçoamento das informações e eliminação de fatores de risco sanitário como se fossem uma idiotice. Reivindicam ações dos governos para aumentar a oferta para a indústria da carne, para acabar com o abate clandestino e o abigeato, mas não querem que se façam controles. Consideram-se a vanguarda genética do país, mas temem não alcançar os índices de produtividade mínimos estabelecidos pelo governo federal.

Há quem afirme que contar rebanhos nunca foi o forte de certos ruralistas. Para eles, o número de cabeças em um mesmo lote de animais é variável. Para mais, quando a declaração é realizada para cálculo da produtividade para fins de desapropriação e das garantias bancárias. Para menos, quando é destinada ao recolhimento de impostos. Existem também aqueles que nunca sabem exatamente quantos animais possuem. Outros, não sabem e não se preocupam com isto.

O programa de identificação e rastreamento do rebanho é medida importante, embora precise ser melhor adequado às condições da agricultura familiar. É urgente localizar os animais clandestinos e regularizar as declarações que a lei obriga. Mesmo que alguns poucos continuem procurando outras formas para dormir, só assim teremos uma boa noite.

(*)Deputado Estadual e Secretário Agrário do PT/RS

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