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Romaria da Terra

04/02/2005 12:00

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Nesta terça-feira de Carnaval, 08 de fevereiro, acontece a 28ª Romaria da Terra, na localidade de Linha Sítio, município de Cruzeiro do Sul. A promoção é da Comissão Pastoral da Terra, Diocese de Santa Cruz do Sul e CNBB Sul III. É uma atividade comum das 17 dioceses do RS. A Romaria da Terra iniciou em São Gabriel, em 1978, e é realizada todos os anos na terça-feira de Carnaval, lembrando o martírio de Sepé Tiarajú e sua luta pela terra e pela vida.

Este evento terá como tema Nossas sementes, nossas raízes, nossa vida. Segundo Dom Sinésio Bohn, bispo de Santa Cruz do Sul, o tema remete à origem e à essência da vida. Sementes que deram origem à agricultura e ao alimento. Cada povo preserva sua semente, preserva a sua cultura e, ao mesmo tempo, preserva sua vida e fortalece suas raízes.

As propostas e compromissos permanentes das Romarias da Terra são de cuidar da terra, da água, do ar e de todos os seres vivos, garantindo a diversidade e a vida na terra. Nesta 28ª edição, a Romaria quer chamar a atenção para alguns aspectos: primeiro, ser um ato contra o monopólio das sementes por empresas multinacionais e o cultivo de transgênicos; segundo, afirmar a importância do pequeno agricultor resgatar e preservar as sementes tradicionais (crioulas) como forma de resistência, soberania alimentar, proteção do meio ambiente e da autonomia dos camponeses.

A programação prevê a abertura às 8h30min, junto à sede do Esporte Clube Tamoio, seguido da caminhada até a propriedade de Marlene dos Santos, onde continuará a celebração, sendo que na homilia será pregador o Pastor Werner Fuchs da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, do estado do Paraná. Às 13h haverá lançamento do livro Os novos desafios da Agricultura Camponesa de Frei Sérgio Görgen e, em seguida, momento cultural, com fala de entidades, movimentos sociais, grupos étnicos, músicas e a fala do Ministro das Cidades, Sr. Olívio Dutra. O ato de encerramento está previsto para às 15h30min com a bênção e a troca de sementes crioulas e celebração de envio dos romeiros.

A Romaria já possui uma tradição histórica no RS; mais de 900 mil pessoas já participaram, fazendo dela uma grande celebração de fé e luta pela reforma agrária, conservação das sementes, defesa da água, organização e mobilização social. A novidade deste ano é a volta às origens das primeiras romarias: não haverá venda de bebidas alcoólicas nem de refrigerantes, mas somente água e sucos naturais.

Telefones para contatos:
(51)501.5179 ou 501.5167
99580398 - Frei Olavio Dotto
99937998 - Marcos
99532477 - Dogival Duarte
Cruzeiro do Sul, 04 de fevereiro de 2005.
Frei Olávio José Dotto e Evanir José Albarello
Comissão Pastoral da Terra - CPTRS

(*) Nota da Comissão Pastoral da Terra

Romaria da Terra resgata a história e as raízes do povo gaúcho *

A 28ª Romaria da Terra acontece na Linha Sítio, município de Cruzeiro do Sul, no dia 8 de fevereiro de 2005, feriado de carnaval. Muitos romeiros e romeiras se dirigem para lá, motivados pelo forte desejo de resgatar suas raízes, fortalecer a fé e renovar o compromisso de cuidar da terra, da água e de todos os seres vivos.

O tema da Romaria, Nossas sementes, nossas raízes, nossa vida, nos remete à essência da vida. As sementes deram origem à agricultura e ao alimento. O povo que preserva suas sementes, preserva também a vida e a cultura, fortalecendo suas raízes. Apresentamos uma síntese do tema.

Nossas sementes

No princípio, as pessoas observavam as plantas e os animais, selecionando-os e utilizando-os conforme as necessidades. Pelas mãos das mulheres, as primeiras a coletar e plantar sementes, nasceu a agricultura. Os agricultores coletaram e selecionaram sementes e plantas, que através da troca com outros grupos camponeses, foram aumentando e melhorando a diversidade. Essa prática milenar resultou em mais de 1.500 espécies, quase todas de produtos alimentares.

Da pré-história aos dias de hoje, as sementes e os animais se espalharam pelo mundo através das migrações. O cultivo foi sendo adaptado e selecionado por processos naturais e simples, dos próprios agricultores. As sementes pertenciam aos povos, às nações, a toda a humanidade. Eram símbolos da vida, bem comum e em muitas culturas consideradas sagradas.

Nos últimos anos, as sementes vêm sofrendo um processo de desaparecimento. Calcula-se que 75% das 1.500 espécies cultivadas, já tenham sido perdidas. Atualmente, a alimentação humana está reduzida a aproximadamente 30 variedades. A perda das espécies deve-se ao processo de mudança genética, principalmente através das variedades híbridas e transgênicas, do exagerado uso de agrotóxicos. Objetivando o lucro, assim como a terra e a água, as sementes também se tornaram mercadoria. Hoje, o comércio mundial de sementes é controlado por um pequeno grupo de empresas multinacionais, que também controlam o mercado agroquímico e veterinário.

A semente na Bíblia

No livro do Gênesis, no mais belo poema à criação, Deus fala da semente dizendo: que a terra produza relva, ervas que produzam semente, e árvores que dêem frutos sobre a terra, frutos que contenham semente, cada uma segundo a sua espécie (Gn 1,11).

No Novo testamento, Jesus nos fala da boa semente, que cai em terra boa e dá bons frutos. Proteger essa semente e cultivá-la, faz parte do processo de evangelização. Porém, é preciso estar atento ao joio, a má semente que contamina o trigo. No mundo de hoje, o simples gesto de lançar uma semente nativa na terra, torna-se um gesto profético, uma nova forma de conceber o próprio mundo.

Mais tarde, o apóstolo Paulo, usa a imagem da semente referindo-se à gratuidade divina. Deus que dá a semente ao semeador, também dará o pão em alimento para vocês. Multiplicará a semente e ainda fará crescer o fruto da justiça que vocês têm (2Cor 9,10).

Semente, portanto, é fonte de vida, sinônimo de justiça e fartura. É vista como totalidade das espécies, das estações do ano, do tempo de plantar, de colher, da integralidade da natureza. Cada colheita farta é o resultado da ação de Deus no meio de seu povo.

Nossas raízes

O povo gaúcho é formado pela contribuição e riqueza de muitas etnias, tribos e nações. Como primeiros habitantes citamos os povos indígenas. Viviam em tribos, com seus saberes e costumes. Caçavam, pescavam e tiravam do mato muitas frutas e raízes para completar sua alimentação. Cultivavam amendoim, batata-doce, milho, mandioca, feijão, erva-mate, algodão e outros.

Os indígenas tinham grande orgulho pelo seu povo, gosto pelas lides campeiras, amantes da liberdade e grande capacidade para o trabalho em geral. Por conta disso, foram aprisionados e vendidos como escravos aos bandeirantes. Os grupos indígenas foram praticamente extintos durante o processo de ocupação do território gaúcho. Os grupos de maior expressão que subsistem hoje, são os Guaranis e os Kaigangs. Porém, continuam sendo violentados e desrespeitados em suas reservas e travam uma luta enorme pela demarcação de suas terras.

A história gaúcha tem poucos registros da entrada do povo negro no Estado. Sabe-se que em 1780, havia 5.103 escravos negros, chegando a formar, em 1810, a metade da população de Pelotas. A mão-de-obra escrava foi utilizada na produção do charque gaúcho e de outras riquezas, além de compor a força militar e de serem grandes tropeiros. O negro coloriu a alegria das festas populares, incorporando esse valor ao caráter gaúcho, juntamente com a bondade, a tolerância, o amor à paz... Hoje, a comunidade negra do RS luta por justiça social, pelo exercício pleno de cidadania, pelo reconhecimento de sua religiosidade e pela demarcação de suas terras, os Quilombos.

Da Europa vieram os portugueses, movidos por interesses econômicos e tornaram-se estancieiros e fazendeiros. Depois vieram os açorianos, procedentes do arquipélago de Açores, onde as famílias viviam na miséria. Adaptaram-se facilmente à cultura local, viviam dos frutos da terra e praticavam uma agricultura de subsistência. Além deles, da Europa vieram imigrantes alemães, italianos e poloneses. A pobreza, a falta de terra, a fuga das repressões e da guerra, a miséria dos pequenos agricultores foram os principais motivos que os levaram a atravessar o oceano, atraídos também, pelas promessas do governo brasileiro.

Unindo a capacidade de trabalho, a participação comunitária e o espírito de fé, juntavam-se em mutirão para a abertura de estradas, a construção de escolas, capitéis, cemitérios, locais de lazer, casas e capelas. Tinham também um grande cuidado com a terra e mesmo com dificuldades, produziam tudo na propriedade. Os porões das casas estavam sempre cheios de comida diversificada e saudável. Trocavam entre si produtos, sementes, ferramentas e nos dias de chuva, as casas tornavam-se espaço de artesanato e carpintaria. As comunidades dos mantinham o espírito solidário e cristão através de quatro pilares, a família, a escola, a comunidade e a comunicação.

Nossa vida

Desde a antiguidade os agricultores construíram uma relação muito especial com a terra, como mãe, geradora de vida, da qual depende nossa sobrevivência. Ao lançar a semente na terra acompanham seu crescimento, alimentam-se de seus frutos, experimentam a vida, vivem a mística da generosidade da natureza e da bondade de Deus.

A posse das sementes próprias representa autonomia, liberdade, abundância, poder popular, auto-suficiência. A vida acontece na prática da agroecologia como opção, como modelo de desenvolvimento, capaz de valorizar a pessoa e o meio ambiente, produzindo comida saudável. Expressa-se nas comunidades, no trabalho associativo, no mutirão comunitário, na solidariedade, nos grupos alternativos, nos movimentos sociais do campo, na economia popular solidária, na vivência da fé e no respeito a toda a criação.

É a semente que impulsiona toda esta vida. Milhares de camponeses defenderam a vida das sementes e as preservaram até nossos dias. Semente é vida, é base de alimentação, multiplicação, crescimento e sobrevivência. É elemento básico da agricultura como estratégia social, por isso deve permanecer nas mãos dos trabalhadores e trabalhadoras, que produzem comida.

(*)Do site da Diocese de Passo Fundo
www.pastoral.com.br

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