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Dos salários e das mãos

29/04/2005 12:00

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"O lobby dos magistrados falou mais alto do que a pressão exercida por servidores do Judiciário". A frase de abertura da matéria de Zero Hora (20/4, pág, 31), reflete com exatidão o que aconteceu no Plenário da Assembléia Legislativa no dia anterior quando os deputados que sustentam o Governo Rigotto aprovaram a criação de 635 cargos de confiança (CCs) no Poder Judiciário. O mesmo projeto extinguiu o concurso público que já havia, inclusive, previsto a abertura de 389 vagas de auxiliares de juízes. Nestes tempos em que se tenta, de Sul a Norte, conter o nepotismo, a decisão é uma porta aberta a um retrocesso escandaloso na estrutura funcional do Estado.

Mas não foi só o lobby dos juízes para contratarem CCs que prevaleceu na sessão do dia 19. Nesta data também foram aprovados reajustes salariais para os próprios juízes, procuradores e conselheiros do Tribunal de Contas e para os funcionários dos poderes Judiciário, Legislativo e ainda Ministério Público. Na prática, quem já ganha os mais altos salários do Estado, vai ganhar ainda mais.

Ressalve-se a diferença, que não é pequena, entre o salário de um desembargador ou de um procurador e o de um servidor comum do Judiciário ou do Ministério Público. Em questão, contudo, estão as prioridades de um Estado onde professores e brigadianos continuam percebendo salários de fome e onde não se vislumbra um lobby capaz de, ao menos, encaminhar-lhes um futuro menos indigno. Assim, cumpre que se exija uma postura mais responsável desta maioria de legisladores estaduais que, com a mesma inconsciência, tem aprovado uma renúncia fiscal de bilhões, um tarifaço que penaliza os mais pobres ou aumentos que esgaçam a folha do Estado sem corrigir o que nela há de pior, ou seja, a diferença entre os maiores e menores salários.

Está carecendo de um surto de realidade a Ilha da Fantasia em que parece estar vivendo a base de sustentação do governo Rigotto na Assembléia Legislativa. Ora, estamos falando de parlamentares que sustentam um governo cujo discurso faz da crise uma verdadeira ladainha, que diz não ter dinheiro para fazer obras e nem sequer para pagar o 13º. Mas afinal, a que senhores servem estes senhores? É chegado o tempo desta definição. Se não por um mínimo de respeito a professores e brigadianos, ao menos para que não fiquemos indefinidamente nas mãos de quem tira com uma e depois, sem dar nada com a outra, lava as duas.

(*) Deputado estadual do PT, presidente da Comissão de Agricultura, Pecuário e Cooperativismo da Assembléia Legislativa

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