Cadastra-se para receber notícias
Monocultura

20/03/2006 12:00

Tamanho da fonte

“É urgente que o Estado garanta as condições necessárias para que os organismos ambientais providenciem a elaboração de um estudo de impacto ambiental que estabeleça os limites e as potencialidades reais dos projetos de florestamento na Metade Sul”. O alerta é do presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo da Assembléia Legislativa, deputado Elvino Bohn Gass (PT) e foi feito ao final da audiência publica realizada no município de Herval, quando o tema “florestamento” gerou um acirrado, porém civilizado, debate na tarde desta segunda-feira (20). Quem chamou a atenção para a não existência deste documento fundamental foi o representante da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Aroldo Barwaldt, engenheiro agrônomo responsável pela Agência Florestal Pelotas. O técnico queixou-se da falta de condições mínimas para a execução de um trabalho satisfatório na Metade Sul.

Marcada pela diversidade de opiniões e com uma representatividade muito plural, esta foi a segunda audiência publica que a CAPC realizou sobre o tema. A conclusão foi, mais uma vez, a mesma: os defensores do plantio alegam que não haverá impactos negativos como dizem os que se posicionam contrários ao projeto. O secretário adjunto de Agricultura do Estado, Marcos Palombini, assegurou que não haverá prejuízo sobre os recursos hídricos, que o risco de desertificação não existe, que a plantação de florestas é um ótimo negócio e que o Estado só está incentivando esta atividade porque a Metade Sul carece de iniciativas de investimento que gerem emprego e renda. Palombini também assegurou que a área plantada não ultrapassará os limites da legislação e que Herval vai crescer se for inserido nestes projetos de florestamento.

Posição absolutamente diversa foi apresentada pela representante da ONG Amigos da Terra, Carla Vilanova. Segundo ela, em primeiro lugar é preciso desconstruir o termo “florestamento” porque, no Brasil, floresta é sempre diversificada, como na Amazônia e o caso da Mata Atlântica. “O que temos aqui é uma lavoura de árvore, uma monocultura de eucalipto, um plantio comercial, nunca uma floresta, no máximo um descampamento”. Carla chama atenção para a existência, no Pampa gaúcho, de mais de 3 mil espécies diferentes de plantas e de um enorme número de espécies animais que são típicas deste tipo de vegetação baixa e formada por coxilhas, cerros e campo limpo. “Se no lugar do bioma Pampa vamos ter eucaliptos, toda esta riqueza de biodiversidade estará comprometida” garante a engenheira agrônoma da Amigos da Terra.

Para o presidente da Comissão, deputado Bohn Gass, há ainda uma questão que não vem sendo levada em consideração pelos incentivadores dos projetos de florestamento. “Trata-se do modelo de desenvolvimento. A Metade Sul empobreceu por causa do latifúndio e da monocultura. Agora, o que estamos oferecendo à população desta mesma Metade Sul? Ora, latifúndio da empresas e monocultura de árvores. É, portanto, urgente que discutamos se este é o projeto que a população desta região quer” , alertou.

Como forma de evitar que novos debates aconteçam sempre sobre dados que são conflitantes - de um lado, os que dizem que os impactos serão positivos sobre a economia e que o meio ambiente não sofrerá tanto; de outro, os que afirmam que a terra será erodida, que os recursos hídricos ficarão escassos e que a cultura local será completamente aviltada se os agricultores forem levados a plantar eucaliptos - o presidente Bohn Gass vai encaminhar ao governo do Estado o pedido de que se providencie um memorial com dados oficiais sobre os projetos de florestamento. “Não é mais possível ouvir, de um lado, o governo do Estado afirmar que não haverá impacto sobre os recursos hídricos da região; e de outro, ecologistas e estudiosos garantindo que em alguns anos após as primeiras plantações a água desta região ficará escassa. Ora, a verdade precisa vir à tona. Mas isto só poderá acontecer se a sociedade gaúcha tiver, em mãos, dados oficiais para poder contestá-los ou para ficar tranqüila com relação aos efeitos do florestamento. Para começar, acho que é um dever do Estado apresentar o estudo de impacto ambiental” disse Bohn Gass.

Compartilhe:

  • Facebook
  • Share on Twitter