Cadastra-se para receber notícias
DITADURA MILITAR MATOU MAIS DE 1.000 PESSOAS NO MEIO RURAL

01/04/2014 10:31

Tamanho da fonte

DITADURA MILITAR MATOU MAIS DE 1.000 PESSOAS NO MEIO RURAL

Pronunciamento do deputado Bohn Gass no Plenário da Câmara federal em 1º de abril de 2014:

 

Sras e srs,

O Brasil inteiro, ontem, lembrou do golpe que deu origem à fase mais nefasta da nossa história – a ditadura militar.

Mas, de novo, como quase sempre acontece, pouco se falou do campo.

Então, o que me traz a este plenário é reafirmar, para o registro na história desta Casa, que

A DITADURA TAMBÉM TORTUROU E MATOU BRASILEIROS E BRASILEIRAS QUE MORAVAM NO CAMPO.

Porque a luta democracia também aconteceu na zona rural do Brasil.

E a repressão no rural brasileiro é uma história que ainda precisa ser contada.

Bem esta história de luta foi construída, em grande medida, no anonimato.

Mas a verdade é que os trabalhadores do campo estavam organizados, antes do golpe de 1964, em ligas camponesas e outras tantas formas de articulações locais que buscavam seus direitos e enfrentavam o latifúndio.

Quando veio o golpe, os militares foram maciçamente apoiados pelos latifundiários.

E estes, com a complacência do regime, sentiram-se então autorizados a liberarem seus capangas para aumentar fortemente a repressão no campo.

Foi um tempo em que o sangue na terra jorrou aos borbotões.

Eu disse, esta é uma história que ainda precisa ser melhor contada.

Mas algumas tentativas vêm sendo feitas.

O projeto Memória e Verdade da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, por exemplo, tenta bravamente colaborar para a recuperação desta tristíssima memória e nos traz alguns dados:

- seriam pelo menos 1.196 camponeses e apoiadores mortos ou desaparecidos do período pré-ditadura até o final da transição democrática – estamos falando de 1961 até 1988

- deste período, apurou-se que 97,6% dos camponeses mortos e desparecidos na ditadura militar, foram alijados da justiça de transição.

- significa que apenas 51 famílias de todas essas vítimas requereram reparações à Comissão de Anistia

- e, destes, somente 29 tiveram seus direitos reconhecidos.

Então, senhores e senhoras, diante desses números e das condições circunstanciais da repressão no campo, não é nenhum exagero afirmar:

Primeiro, que a ditadura matou mais gente no campo do que na cidade

E segundo, que por conta das circunstâncias, a crueldade das mortes de camponeses foi ainda maior do que as já repugnantes mortes dos homens e mulheres da cidade.

É fácil de entender: lá, nos lugares mais remotos, quase nenhuma forma de fiscalização cidadã, nenhum jornal de resistência, conseguia chegar.

Mas há, ainda, outra fonte a nos fazer crer que o número de mortos pela ditadura no campo foi ainda maior.

Um estudo da Comissão Pastoral da Terra da Igreja Católica, por exemplo, indica que entre 1964 e 1989, o Brasil contabilizou o assassinato de 1.566 trabalhadores e trabalhadoras rurais.

Repito: 1.566 assassinatos!

E os senhores sabem quantos destes crimes foram a julgamento? 17. Isto mesmo, apenas e tão somente 17.

E sabem quantas foram as condenações? Oito. Isto mesmo, apenas e tão somente oito.

O certo, senhores e senhoras, é que financiada pelo latifúndio, a ditadura militar brasileira, além de ter cometido crimes brutais com as próprias mãos, ainda  “terceirizou” prisões, torturas, mortes e desaparecimentos forçados de camponeses que se insurgiram contra o regime e contra as péssimas condições de trabalho no campo brasileiro.

Esta é uma verdadeira mordaça no campo, um silêncio imposto pela realidade do meio rural, com suas distâncias e dificuldade de acessar informações e mais ainda, de ser visto como parte fundamental da construção de nossa identidade nacional.

Mas estamos mudando esta realidade.

Graças aos esforços de muitas lideranças, pesquisadores e militantes do campo, o Brasil começa a contar essa história.

É uma história muito triste, mas que vem sendo feita inspirada pelo exemplo de superar este período de trevas no Brasil. E, em especial, no meio rural. 

 

Compartilhe:

  • Facebook
  • Share on Twitter