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Fraude no Detran

09/07/2008 12:00

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Hoje, reproduzo aqui o discurso que fiz na tribuna da Assembléia Legislativa no momento em que discutíamos o relatório final da CPI do Detran apresentado pelo deputado Adilson Troca (PSDB). O PT votou contra o relatório e apresentou um voto em separado indiciando a governadora Yeda, os ex-secretários Cézar Busatto, Delson Martini, Ariosto Culau e Marcelo Cavalcante e ainda o deputado federal José Otávio Germano e o presidente do TCE, João Luiz Vargas:

O que eu disse - Senhoras deputadas, senhores deputados, quero lhes dizer que, ao longo da CPI, me convenci de que a Fraude do Detran foi o maior e mais escandaloso caso de corrupção da história do RS.
A PF e o MPF fizeram um trabalho elogiável sob todos os aspectos. E a CPI, ao contrário do que sustentam comodamente alguns, ampliou este trabalho.
Hoje, os gaúchos e as gaúchas sabem, graças ao esforço de policiais, procuradores e deputados, quem são e do que são capazes, por exemplo, homens como Carlos Ubiratan dos Santos, Flávio Vaz Netto, Antônio Dorneu Maciel, Lair Ferst, Jorge Sarkis, José Fernandes, Hermínio Gomes Júnior e outros que durante muitos anos transitaram nos melhores salões, ocuparam cargos em altíssimos escalões de governos e circularam pelos poderes e as colunas sociais como se fossem homens de bem.

Foro privilegiado - Esta CPI trabalhou muito. E quando se disse, como fez o relator Adilson Troca, que ela não podia pretender ir além da polícia federal, se cometeu um erro gravíssimo.
Ora, uma CPI tem sim O DEVER E O PODER para indicar o indiciamento de pessoas que têm foro privilegiado
O relatório do deputado Troca, porém, não cita ninguém. É, como alguém já disse, um relatório que faz um ajeitamento político e que muito provavelmente, foi escrito sob a fiscalização rigorosa dos interesses do governo Yeda.

Mentiras e confissões - Ora, na CPI do Detran ouvimos confissões, ou alguém já esqueceu o depoimento do senhor Silvestre Selhorst? Identificamos mentiras e contradições profundas, ou alguém já esqueceu do que disseram Vaz Netto, Bira, Maciel, Zé Otávio, Hermínio, Chico Fraga e tantos outros que mentiram deslavadamente na comissão mas que foram desmentidos pelos fatos sempre poucas horas depois?
Algumas conclusões foram uníssonas na CPI do Detran. Os laranjas do senhor Lair Ferst, por exemplo. Ou alguém já esqueceu o depoimento da senhora Nilza Terezinha e de Alfredo Pinto Teles?

Resposta - Senhores, trabalhamos exaustivos cinco meses nesta investigação. E aqueles que quiseram fazer um trabalho sério, certamente gastaram muitas horas lendo documentos intermináveis, analisando provas, ouvindo testemunhas e escabrosas escutas telefônicas....
Enfim, senhores, foi um trabalho árduo e muito cansativo que tinha um único objetivo: oferecer ao povo gaúcho respostas concretas sobre este que é o maior escandalo de corrupção da nossa história.
Pois bem, senhores, a CPI chegou a estas respostas.
Mas quando lemos o relatório do deputado Troca, infelizmente, não encontramos estas respostas no documento.

Tede de defesa - Ao contrário, o que se vê neste relatório é uma tentativa de absolvição dos poderosos que estiveram envolvidos na fraude
Senhores, é a nossa história, o nosso trabalho, a nossa vergonha que está em jogo.
Não é possível que depois de tudo o que vimos e ouvimos, não tenhamos uma palavra a dizer sobre reveladora conversa do secretário Busatto com o vice-governador.
Não é muito difícil imaginar o que a opinião pública vai dizer quando se der conta disso. Não esqueçamos que o povo ficou sabendo de toda a conversa que foi publicada nos jornais e reproduzida pelas rádios e tvs.
E a Assembléia faz o quê com toda aquele diálogo obsceno, vergonhoso, vexatório? Se depender do relatório do deputado Troca, NADA, absolutamente NADA senhores. Ora, isso não pode passar em branco.

José Otávio e João Luís - Mais: e o deputado José Otávio? Não temos nada a dizer sobre o envolvimento dele na fraude? Por favor, não me venham com o argumento de que ele não foi indiciado pela Polícia porque nós estamos roxos de saber que se a Polícia o tivesse mencionado, levaria todo o processo investigativo para os tribunais superiores.
É óbvio que o deputado teve alguma participação no esquema e é elementar que as investigações não o mencionam num primeiro momento justamente para garantir sua continuidade. Os senhores até podem dizer que não, mas no fundo, sabem que esta é a verdade. Aliás, a imprensa cumpriu um bom papel neste caso e já deixou isso muito claro para o povo gaúcho que, agora, também já sabe o que aconteceu.
E o conselheiro João Luiz? Será que o fato de ele próprio ter sido sócio de uma sistemista e de o seu filho continuar como sócio de uma empresa que não fazia nada, apenas escoava propina não merece uma providência de nossa parte? Segundo o deputado Troca, não. Vou dizer de novo: o povo está vendo senhores, o povo está vendo...

Os ex-secretários - Por fim, o voto em separado da bancada do PT indica o indiciamentos dos secretários de Yeda que se não tivessem nada a ver com a fraude, certamente ainda estariam nos seus cargos. Não estão! Foram demitidos pela governadora.
Ah, alguns vão dizer que não havia ambiente político para mantê-los. Mas como? Ambiente político não derruba ninguém que não tenha algum grau de culpa. Se caíram é porque se envolveram no escândalo, porque sua presença no Piratini contamina o governo.
Culau debochou do povo ao tomar chope com o quadrilheiro-mor.
Martini foi citado uma dezena de vezes pelos quadrilheiros como interlocutor, como orientador de procedimentos dos fraudadores.
Cavalcante recebeu em mãos, por escrito, uma carta com quase tudo sobre o quadrilha e diz não ter entregue a carta à governadora. Ora senhores, admitir isso é o mesmo que acreditar em Vaz Netto quando ele pediu que os deputados o tomassem por ingênuo.
Nenhum deputado aqui tem o direito de ser ingênuo e esta é a última qualificação do senhor vaz Netto, hoje, sabidamente, enrolado até o pescoço neste escândalo.

Yeda - E por fim, senhores, não há como deixar de responsabilizar a governadora Yeda.
Há pelo menos umas 10 razões para fazê-lo.
Ela foi avisada da fraude por Enio Bacci.
Foi avisada por Vaz Netto.
Yeda recebeu os sindicalistas dos examinadores na hora em que as fundações eram trocadas. E depois de trocar a Fatec pela Fundae, já no SEU governo, o número de sistemistas duplicou!
Yeda tinha uma grande proximidade com vários dos quadrilheiros.
Yeda é citada nas escutas telefônicas como se tudo soubesse e o que é pior, como se dela dependessem decisões vitais para o esquema como a manutenção ou não de Lair Ferst na maracutaia.
Senhores, a governadora sabia e nada fez. A governadora prevaricou. A governadora cometeu crime de improbidade e deve ser responsabilizada por isso.
A sociedade gaúcha espera mais de nós, senhores deputados, do que um arranjo politiqueiro que não responsabiliza ninguém! Espera que tenhamos coragem, senhores, para que apontemos os culpados, os mandantes, os que encheram suas burras com o dinheiro que é do povo gaúcho.
Temos hoje aqui a chance de mudar a machete de um grande jornal que no dia seguinte à primeira votação do relatório estampou em letras garrafais: sem CPI encerra sem resultados práticos.
Senhores, ainda estamos em tempo de mudar isso. E negar este poder à CPI com um relatório pífio como este, é uma forma de disfarçar uma atitude medrosa, que faz valer a política rebaixada e acordista
Negar este poder à CPI é negar ao povo gaúcho o direito de saber a verdade.
E a verdade, senhores, todos nós sabemos, mais dia menos dia, acaba vindo à tona.

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