Cadastra-se para receber notícias
PORÕES E GAVETAS DE UM GOVERNO SURDO

11/03/2009 12:00

Tamanho da fonte

Dias atrás, uma série de reportagens da RBS sobre a epidemia de crack que assola o Estado, mostrou imagens de usuários fumando, tranquilamente, a droga quase em frente à Secretaria de Segurança, bem pertinho de uma delegacia da Polícia Civil e a poucos metros de um caminhão da Brigada Militar. A matéria, além de apresentar a inoperância atual dos órgãos de segurança, denunciava a inação do governo Yeda diante de uma reportagem feita um ano antes, com imagens muito semelhantes. Nada foi feito e o resultado, óbvio, é que o drama do crack se alastra.

Para comentar a matéria, o ouvidor da Segurança Pública, Adão Paiani, foi chamado ao estúdio do Jornal do Almoço e fez declarações fortes. Disse, por exemplo: Se nós permitirmos que algumas coisas aconteçam na sala de nossa casa, o que é que nós não vamos permitir que aconteçam no porão?... A repórter, então, foi direto ao ponto: O senhor está sugerindo que acontecem coisas muito piores que a gente não vê. É isso? E ouvidor, de pronto, declarou: Ah, sem dúvida nenhuma.

Questionado sobre o retorno que a Ouvidoria recebe das corregedorias da Polícia Civil e da Brigada Militar diante das denúncias que encaminha, Paiani até tentou não responder mas, pressionado, admitiu: Ainda é ineficiente, insuficiente. Sobre o fato específico de a reportagem estar se repetindo um ano depois sem que nada de efetivo tenha sido feito, Paiani avaliou como uma demonstração de falta de força (do Estado).

A entrevista prosseguiu: Quantas vezes a governadora Yeda lhe chamou para ouvir as reclamações da população com relação aos órgãos de segurança? Paiani tentou, de novo, desconversar alegando que o convívio mais formal se daria com o secretário de Segurança, mas acabou informando que só se encontrou com a governadora uma vez. Perguntado se ao declarar tais coisas não teria medo de perder o cargo, o ouvidor se mostrou tranquilo e defendeu Yeda: Não, porque a governadora compreende o papel da ouvidoria.

Pode ser que compreenda mesmo. O que a governadora parece não ter compreendido foi a entrevista de Paiani, pois escorraçou-o na última terça-feira, pelo Diário Oficial, sem ao menos avisá-lo previamente de que seria demitido. Uma indelicadeza e tanto!

Fontes que não querem ser identificadas garantem, contudo, que a entrevista serviu apenas como justificativa. A verdadeira razão para a saída de Paiani estaria na sua gaveta onde haveriam documentos que o colocariam em rota de colisão com pessoas muitos próximas da governadora. A gaveta dele, a estas alturas, já está vazia. Mas se for, como dizem estas mesmas fontes, um homem diligente e judicioso, Paiani certamente guardou muito bem, em outro local, tudo o que estava na sua gaveta.

Nada muito novo para quem conhece o modus operandi deste governo que não recebe professores, que não escuta o clamor dos usuários da saúde, que faz ouvidos moucos para pais e alunos diante da enturmação, que finge não ouvir o grito quase desesperado de policiais e brigadianos. Antes mesmo de demitir o ouvidor, este já era um governo surdo.

Compartilhe:

  • Facebook
  • Share on Twitter