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Uma questão de caráter

26/03/2009 12:00

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Recebi, do valoroso companheiro Gervásio Paulus, este texto sobre o governo Yeda. Reproduzo-o, então, aqui neste blog, na intenção de ampliar sua divulgação já que considero a reflexão oportuníssima. Gervásio, para os poucos que ainda não sabem, é um engenheiro agrônomo de mão cheia e um homem com profunda consciência social. Não sou só eu que penso assim. Tanto que o Gervásio é o atual presidente da Asae - Associação dos Servidores da Ascar Emater/RS, uma categoria que conta com gente da melhor qualidade tanto humana quanto técnica e que, justamente por reunir estas virtudes, faz da assistência técnica rural gaúcha, uma das melhores, senão a melhor do país. Boa leitura.

O governo Yeda e as suas circunstâncias

É amplamente conhecida a célebre frase do filósofo, ativista político e escritor espanhol Ortega y Gasset (1883-1955) Yo soy yo y mi circunstancia. Menos conhecido, mas igualmente rico para reflexão, é complemento da frase: ... y si no la salvo a ella no me salvo yo." A sentença completa então é algo como: eu sou eu e minha circunstância, e se eu não a salvo (a circunstância), também não me salvo.

O que está acontecendo hoje no nosso estado se aplica como uma luva a essa afirmação. Se o governo Yeda não consegue salvar as suas circunstâncias, tampouco salva a si próprio. Esse é o sentido mais agudo da sucessão de escândalos que se anunciam, e que parecem não ter fim. A crise, diga-se, não foi criada com as denúncias recentes do PSOL, estas apenas fizeram colocar em relevo uma situação de fato que vinha praticamente desde o primeiro dia de governo.

Quais são essas circunstâncias, sabemos todos, em linhas gerais. Não bastassem a postura de repressão e criminalização dos movimentos sociais, o arrocho dos funcionários públicos, o autoritarismo e desrespeito com conquistas históricas dos trabalhadores, a sociedade acompanha, perplexa, a denúncias quase diárias de escândalos envolvendo o núcleo de poder, sendo a mais recente protagonizada pelo ex- ouvidor da SSP Adão Paiani. Do ponto de vista da mediação política, o mínimo que se pode dizer é que a governadora não dialoga, na melhor das hipóteses monologa com a sociedade organizada, com o parlamento e com a própria equipe que compõe o seu governo.

Estranhamente, o furor com que são tratados os movimentos sociais e o funcionalismo não se fez sentir em relação aos autores das gravíssimas denúncias que foram feitas contra ex-integrantes e integrantes do governo, incluindo a própria governadora, pelos dirigentes do PSOL. O governo finge que não é grave e tenta minimizar o fato, dizendo tratar-se de conversa de bêbados de bar. O mínimo que a sociedade espera é que se exija uma retração e punição exemplar pelas denúncias supostamente infundadas e, nesse caso, levianas e irresponsáveis. Ou são procedentes ou trata-se de calúnias, passíveis de reparação por danos morais.

Por que não se exige essa reparação? Estaria nesse caso faltando a tão alardeada coragem para fazer? Ou há o medo de que as provas de fato existam e, nesse caso, é melhor não processar, pois estas poderão aparecer? Outro fato que chama a atenção é que em momento algum as denúncias foram desmentidas. E isso abala ainda mais a já combalida credibilidade de quem prefere, nesse caso, se omitir.

O que a sociedade espera neste momento da governadora e outros denunciados não é que eles provem a sua (presumida) inocência, mas que reajam à altura da figura pública que representam e que processem os autores das supostas denúncias por calúnia e difamação. Se não o fizerem, o mal-estar aumentará ainda mais a cada dia, a cada hora. Ao revelar sua incapacidade de reagir à altura das responsabilidades que dele se espera, o governo gaúcho acaba por ter abalada a sua autoridade moral e intelectual para exercer a condição de dirigir seus governados. E nesse caso, não há força de repressão que possa substituir o vácuo que se cria.

Para não parecer que sejamos deterministas, convém lembrar que as circunstâncias que estão postas não foram inevitáveis, elas são fruto de escolhas, de opções feitas, antes e durante o governo. É ainda Ortega y Gasset que nos lembra: Surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem num só instante se deixa descansar a nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir. É, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias». Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter.
Gervásio Paulus

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