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É tempo de pensar num outro modelo agrícola

28/04/2009 12:00

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Preocupado que estou com os efeitos, já trágicos, da falta de chuvas em nosso Estado, tenho conversado muito com agricultores familiares, especialmente os que tem suas propriedades nas regiões da Grande Santa Rosa, Missões e Celeiro. Na última sexta-feira, também tive a oportunidade de participar de um encontro do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) em Palmeira das Missões que reuniu produtores de mais de oitenta municípios gaúchos. De todos, ouço a mesma coisa: a seca está causando enormes prejuízos e é preciso que medidas urgentes sejam tomadas.

Nasci numa pequena propriedade rural em que se praticava a agricultura familiar. Depois, presidi o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Santo Cristo, minha cidade natal. Mais tarde, ajudei a fundar a CUT Rural e, como deputado, sempre coloquei a defesa dos interesses da agricultura familiar como prioridade de minha atuação parlamentar. Durante todo este tempo, convivi com o drama da seca. Infelizmente, são raras as safras em que a falta de chuvas não compromete pelo menos um parte das nossas culturas agrícolas.

As lutas Sempre estive ao lado dos agricultures na busca de soluções para este drama. O Cheque Seca, a criação do Seguro Agrícola Estadual, o perdão de dívidas, a prorrogação de prazos para pagamentos de financiamentos, o Fundoleite, a criação de novas e mais adequadas modalidades no Pronaf, o Seguro Nacional da Agricultura Familiar, enfim, creio ter participado de todas as grandes lutas que visavam minimizar efeitos das intempéries na agricultura, especialmente a familiar.

Sinto orgulho em ter feito parte da base de sustentação do governo Olívio porque aquela foi uma administração que fez muito pelos pequenos agricultores. Basta dizer que foi naquele período que o Estado criou o Seguro Agrícola. Também tenho orgulho de ter ajudado a eleger o presidente Lula que nos seus dois governos, com os ministros Miguel Rossetto e Guilherme Cassel, vem batendo todos os recordes na destinação de verbas e criando as mais completas políticas públicas que já foram oferecidas à agricultura familiar.

Os atrasos O mesmo não posso dizer dos governos de Rigotto e Yeda aqui no RS. Rigotto deixou o Seguro Agrícola de lado e Yeda está acabando de vez com esta proposta. Assim, resta aos agricultores gaúchos a opção do Seguro Nacional. Mas até este tem lá os seus limites. Não há, no mundo, um seguro, agrícola ou de qualquer outra natureza, que seja capaz de pagar perdas permanentes. Vou usar um exemplo um tanto grotesco para me fazer entender: numa área que tem um histórico de alagamento, por exemplo, não há como fazer um seguro contra enchentes. No caso de algumas regiões gaúchas, a seca já se tornou praticamente uma rotina. Assim, seria prudente se começar a pensar em substituir as culturas atuais por outras mais resistentes à estiagem.

O futuro Neste sentido, me parece que já é mais do que tempo de se discutir alternativas. Nas regiões que citei (Grande Santa Rosa, Missões, Celeiro e Norte), penso que se poderia apostar muito mais em suinocultura e avicultura e, também, na cana. Estas são culturas que não sofrem tanto os impactos da seca quanto a soja e o milho, por exemplo.

É preciso pensar a longo prazo e não se pode negar a evidência de que nas últimas 10 safras, tivemos cerca de sete ou oito secas. Quer me parecer que isto não vai mudar apenas por nossa vontade. As mudanças climáticas, o modelo de produção que exigiu o desmatamento de imensas áreas que foram substituídas por lavouras, o uso intensivo de venenos, as monoculturas são fatores que nos exigem uma reflexão maism profunda. Mais do que nunca, vale o trocadilho, neste caso um tanto infame, de que quem planta cebolas, não vai colher tomates. O que quero dizer? Ou começamos a pensar em culturas que resistam à seca, ou seguiremos, ano após ano, vivendo o drama de ver todo o esforço de uma safra cair por terra.

Voltarei a este tema. Até porque, este debate que propus aqui hoje, é de médio e longo prazo. E por mais importante que eu o julgue, não substitui a necessidade de ações imediatas que atendam àqueles produtores que, hoje, estão sofrendo com a estiagem.

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