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Campanha da Fraternidade

17/03/2010 12:00

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O líder da bancada do PT, deputado Elvino Bohn Gass, homenageou, nesta quarta-feira, em Grande Expediente da Assembleia Legislativa, a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010 - Economia e Vida. Bohn Gass classificou como corajoso e generoso o tema escolhido pelas igrejas cristãs (Católica / Episcopal Anglicana / Cristã Reformada / Evangélica de Confissão Luterana / Sirian Ortodoxa de Antióquia / e Presbiteriana Unida) por tratar de um tema que tem influência direta na vida das pessoas, a economia. "Alguns chegaram a dizer que a igreja não devia se meter nestas coisas do dinheiro. Pois eu digo que as igrejas estão se metendo nas coisas da vida, e este é, sim, o seu papel".

Para Bohn Gass, a recente crise financeira mundial, é a consequência natural do "endeusamento do mercado" e da "ganância desenfreada que inventou até a mentira de que era possível obter lucro sem que ele fosse gerado pelo trabalho."

Citando o texto-base da Campanha, o líder petista disse que a mudança da lógica mercantilista excludente, só será alcançada com modificações profundas na política "para que não só os poderosos economicamente tenham acesso e influência nas decisões dos poderes".

Também a degradação ambiental, segundo Bohn Gass, deve ser vista como reflexo de uma sistema econômico que não está a serviço da vida. "Até a água foi transformada em mercadoria, mas não podemos aceitar que um ser humano que usa a água para saciar sua sede, tenha o mesmo custo que a água usada por uma empresa produtora de cerveja".

O deputado encerrou dizendo que uma outra economia, cuja lógica não é o acúmulo de bens mas a divisão igualitária das responsabilidades e dos ganhos, é possível e já acontece. "Trata-se da economia popular solidária, que já garante trabalho e renda para mais de 240 mil pessoas no RS". Bohn Gass lembrou que está tramitando na Assembleia Legislativa um projeto de lei de iniciativa popular que cria a Política Estadual de Fomento à Economia Solidária e pediu que os deputados "fraternalmente, aprovem este projeto".

Leia o pronunciamento na íntegra

Senhoras deputadas, senhores deputados

Antes de tudo, saúdo a todos e todas que, de alguma forma, contribuíram para que a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010 tivesse como tema Economia e Vida.
Para mim, é o mais corajoso e, ouso dizer, o mais generoso de todos os temas já escolhidos e trabalhados nos 46 anos de vida desta magnífica campanha.

E, desde logo, me socorro aqui das palavras de Dom Orlando Oliveira, bispo da Igreja Anglicana e presidente do CONIC gaúcho.

Dom Orlando contou-nos, dias atrás, que quando discutia a escolha do tema da campanha deste ano foi questionado se este era um assunto em que a igreja devia se meter

Sabe como é estas coisas de economia e dinheiro sempre se prestam a polêmicas quem sabe, então, seria melhor deixar a igreja fora disso...

Pois Dom Orlando respondeu o seguinte:

- Jesus era um cidadão entranhado nas coisas do seu tempo. Ele jamais retirou o povo da realidade.

Sim, dom Orlando , o senhor tem toda a razão .

Jesus vivia o seu tempo, pensava sobre as coisas do seu tempo, agia e transmitia a palavra de Deus nas circunstâncias que se apresentavam no seu tempo.

Então, se Jesus não nos sugeriu alienação e, ao contrário, deu seu exemplo de fé, atuando e se posicionando sobre as coisas do seu tempo, creio que é nossa tarefa refletir, tomar posição e atuar sobre as coisas do nosso tempo.

Mas que coisas são estas? Ora, vivemos um tempo marcado por um assombroso culto ao dinheiro , vivemos um tempo de constante apelo midiático pelo acúmulo de bens, um tempo de consumismo desenfreado, um tempo que estimula cada vez mais o individualismo e vivemos um tempo de verdadeiro pré-hecatombe ambiental.

Todas estas coisas, senhoras e senhores, interferem, prejudicam, ameaçam e diminuem as nossas vidas.

Então, meus amigos, se o tempo em que vivemos é um tempo em que a vida está sob constante risco , é nosso dever, não só como cristãos mas como seres humanos pensar sobre as causas de todos estes perigos que estão aí a colocar em xeque o nosso bem maior, o nosso bem mais sagrado que é a vida.

E se todos estes perigos têm origem necessariamente no sistema econômico predominante, então discutir , debater, entender e, na medida das nossas possibilidades, denunciar e modificar este sistema econômico é um dever de todos aqueles que foram presenteados com a vida.

Portanto, ao propor uma Campanha da Fraternidade com o tema Economia e Vida, a igreja não está se metendo nas coisas da economia. A igreja está se metendo nas coisas vida.

Bem, estamos falando de uma campanha "da fraternidade" que, este ano, como já aconteceu em 2000 e 2005, é promovida por todas as igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil.

São elas a Igreja Católica, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Igreja Cristã Reformada, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Igreja Sirian Ortodoxa de Antióquia e a Igreja Presbiteriana Unida.

Só o fato de tantas congregações terem se reunido em torno de um objetivo comum, o fato de terem focalizado as suas semelhanças e não as pequenas diferenças que possam haver entre elas, só isto já é um sinal nítido, um exemplo muito acabado de fraternidade.

Louvo aqui as campanhas ecumênicas e peço licença para mencionar as campanhas da fraternidade de 1995, que tratava da exclusão, e a de 1996, cujo tema era a política.

O que tem a ver política, exclusão e economia, que é o tema deste ano?

Primeiro, é preciso dizer que exclusão é ausência absoluta de fraternidade.

Sejamos honestos: nos moldes atuais, os maiores responsáveis pela exclusão, ou os nossos piores exemplos de fraternidade, estão justamente na política e na economia.

Sobre a política é sempre oportuno reafirmar que não podemos mais deixar para depois medidas como o financiamento público das campanhas como forma de impedir a mercantilização dos mandatos parlamentares e, também, a valorização dos partidos para que os cidadãos possam escolher ideias, projetos, programas e não este ou aquele sujeito, individualmente.Afinal, ninguém faz nada sozinho.

Se retomo estas questões da política é por ter convicção de que sem modificações profundas o sistema político continuará com pouca capacidade de interferência significativa na economia.

Simplesmente porque só os poderosos economicamente é que terão algum poder de influência sobre as decisões da política .

E quando eu uso a expressão "poderosos economicamente" o faço de propósito. Do jeito que está, quem tem dinheiro, tem poder ,porque consegue atuar sobre o Estado e, muitas vezes, até direcionar o seu papel.

Isto é muito importante, porque ninguém desconhece que a ação do Estado é fundamental na solução dos problemas sociais, na superação das desigualdades.

Sendo assim, temos aí um primeiro grande nó a ser desatado: /fazer com que o Estado, ao definir suas ações, não ouça apenas os poderosos economicamente, as elites, mas dê voz e vez aos diferentes setores da sociedade, não exclua os mais fracos.

Sim ,já existem projetos de governos que destinam atenção e recursos a programas para as partes mais desprotegidas da população.

Eu cito aqui , com orgulho, três iniciativas do governo do presidente Lula neste sentido: o Bolsa Família, o Plano Safra da Agricultura Familiar e os projetos apoiados pela Secretaria Nacional de Economia Solidária.

Juntos, estes projetos somam dezenas de bilhões de reais investidos diretamente nas camadas mais pobres do povo brasileiro.

São avanços importantes porque vão modificando, aos poucos, a lógica perversa do acúmulo do capital sempre nas mãos dos mesmos.

E é precisamente aí que está a grande virtude desta , ou seja, no fato de a campanha ter percebido que a construção do bem comum passa, necessariamente, pela construção de uma nova sociedade.

E esta nova sociedade só será possível com um sistema econômico mais solidário, que não seja pautado pelo acúmulo, mas por uma justa divisão dos ganhos.

Mas como fazer isto? Como realizar,de fato, concretamente, o projeto de igualdade que Deus nos propõe?

Para responder, recorro aqui ao texto-base da Campanha:

"...não queremos limitar-nos a criticar sistemas econômicos. Principalmente, esperamos que a campanha mobilize igrejas e sociedade a dar respostas concretas às necessidades básicas das pessoas e à salvaguarda da natureza a partir da mudança de atitudes pessoais, comunitárias e sociais, derivadas da visão de um mundo justo e solidário.

Vejam bem meus amigos e minhas amigas temos aqui um desafio e tanto: se somos homens e mulheres que acreditam que um novo mundo é possível então cabe a nós construí-lo.

Para tanto, meus irmãos e minhas irmãs, o primeiro passo é praticar novos hábitos buscando consolidar novas atitudes pessoais.

E a paz, a sustentabilidade, a superação da miséria e da fome, a dignidade da pessoa e o respeito aos direitos humanos deverão ser os nossos nortes.

Mas sejamos práticos: o quê, exatamente, podemos fazer para, desde já, ir modificando esta lógica perversa?

Podemos começar exercitando virtudes como a solidariedade e a justiça . A solidariedade nos ensina a vencer o egoísmo e a justiça, a respeitar o direito dos outros.

Podemos, quem sabe, pautar nosso consumo pela necessidade. Que tal, então, só comprar o que efetivamente, precisamos? Podemos, ainda, tomar consciência de que o direito à vida não depende apenas de alimentação, vestuário e moradia, mas também de educação, saúde, segurança, lazer e garantias econômicas e oportunidades para desenvolver todas as capacidades de que uma pessoa é dotada sendo um pouco mais direto, eu diria que as pessoas precisam, por exemplo, de água, e água é uma dessas coisas que o mercado transformou em mercadoria, mas se é justo que se pague pelo consumo deste bem, porque ele é finito o princípio do usuário-pagador, que obriga a quem usa pagar, não pode ser lido ao contrário? Ou seja, quem não paga, não usa.
Isto vale para qualquer bem natural indispensável à manutenção da vida e se falamos de economia a serviço da vida não se pode deixar de falar na desigualdade na distribuição de renda e dos elevados níveis de pobreza de nosso país que apesar dos esforços que vem sendo feitos nos últimos anos / ainda são preocupantes
então sempre que qualquer ação política ou decisão econômica aprofundar este estado de coisas ela deve ser combatida

Vamos um pouquinho mais longe: a concentração da terra as condições desumanas de trabalho a degradação do meio ambiente o não acesso aos direitos sociais a dificuldade de as pessoas participarem ativamente das decisões dos poderes tudo isso deve estar nas nossas mentes e impulsionar nossos corações se quisermos efetivamente transformar os seres humanos em cidadãos portadores de uma vida com dignidade.
Neste sentido é muito oportuno o trecho do texto-base da campanha quando ele diz que:

"...na sociedade de mercado paga-se pela troca de bens e serviços Vende-se e compra-se Não se doa e não se agradece Ao pagar é liquidada qualquer dívida A sociedade de mercado nos afasta das raízes da árvore da vida, que são amor dádiva / fraternidade e solidariedade. Tira-no dos lábios o agradecimento e do coração o sentimento de gratidão

Mas não somos mercadoria e nossa vida não depende dos bens que possuímos..."

É isto, senhoras e senhores! Esta é a frase síntese de tudo o que está em questão nesta campanha: NÃO SOMOS MERCADORIA!

As grandes campanhas publicitárias que nos tratam como seres desprovidos de personalidade como se fôssemos incapazes de escolher o que queremos vestir e o que vamos comer.

a overdose de lançamentos de novidades tecnológicas que inventam um mundo de necessidades desnecessárias

a produção vertiginosa de bens materiais em cujos processos se sacrificam mais e mais os recursos naturais / tudo isso vai mercantilizando a vida e , ao mesmo tempo, fazendo dos próprios seres humanos, mercadoria.

Esta lógica que substitui o Deus-vida pelo Deus-mercado esta prática de servir mais ao dinheiro do que a Deus provou-se recentemente uma verdadeira Torre de Babel Que despencou!!! e provocou a chamada Crise Financeira Mundial.

Ora esta crise nada mais é do que a derrocada de um modelo insustentável de endeusamento do mercado

A ganância foi tanta que transformou em mercadoria o que não era sequer palpável o que sequer existia de fato.

Na busca desenfreada pelo lucro a qualquer preço inventaram-se riquezas que sequer eram geradas pelo trabalho. Sim, fizeram-nos acreditar que seria possível gerar riqueza sem trabalho

A este capital que quer o lucro sem esforço é que se deu o nome de capital volátil

Para mim o termo volátil é muito apropriado não para designar os investimentos de ganhos incertos como define a ciência econômica moderna mas para comprovar que só haverá sentido e sustentabilidade quando as aplicações dos recursos que obtivermos como fruto do nosso trabalho se derem na satisfação das necessidades reais e concretas do ser humano.

Penso que é esta uma das maiores lições da crise financeira mundial E aproveito aqui para registrar que o tema da Campanha da Fraternidade 2010 / foi criado antes mesmo da tal crise o que só demonstra que não era preciso esperar por ela para que o planeta se desse conta de que a lógica econômica que o governava era absolutamente insustentável.

Então, meus amigos e minhas amigas é chegada a hora de aprendermos definitivamente as duas principais lições desta crise e que não por acaso são também as duas mensagens mais importantes desta Campanha da Fraternidade: de que não se pode servir ao dinheiro como se ele fosse Deus e de que é preciso construir alternativas concretas que façam o dinheiro servir única e tão somente à preservação, à valorização e a construção da vida.

Nesta perspectiva aproveito este Grande Expediente para ser portador de um boa nova: quero dizer aos senhores e às senhoras que já existe uma Economia a Serviço da Vida! Uma economia que respeita os recursos naturais uma economia que ao invés de gerar exclusão inclui. Uma economia que respeita o valor do trabalho e distribui seus ganhos de forma justa.

Estou falando da Economia Popular e Solidária uma forma de fazer econômico que já garante trabalho, renda / e portanto inclusão e dignidade para mais de 240 mil pessoas!!! só no Rio Grande do Sul e para outros milhares de brasileiros em todo o país.

Que não se confunda: quando falamos de empreendimentos solidários, estamos falando de empreendimentos auto-gestionários.

Esta Assembleia Legislativa que hoje tem a honra de homenagear a Campanha da Fraternidade 2010 tem nas mãos uma grande oportunidade de contribuir concretamente para esta campanha.

Tramita nesta Casa um projeto lei que cria a Política Estadual de Fomento à Economia Solidária. É uma lei de iniciativa popular o que, por si só, já lhe confere uma legitimidade indiscutível.

E então eu aproveito esta homenagem para pedir a todos os deputados e deputadas desta Assembleia que façam este gesto concreto de contribuição à Campanha da Fraternidade 2010 e que ofereçam fraternalmente seus votos favoráveis a esta lei.

Se o fizermos, não estaremos apenas reconhecendo uma prática econômica que já sustenta milhares de gaúchos e gaúchas mas estaremos dotando o Estado do Rio Grande do Sul de um marco legal capaz de / efetivamente fomentar a multiplicação e a qualificação dos empreendimentos solidários.

Volto ao texto-base da Campanha da Fraternidade:

"...as comunidades cristãs não existem para si mesmas mas são chamadas a servir. Neste serviço, não cabem competições por poder, mas os testemunhos de inclusiva solidariedade... E as comunidades cristas servem quando propõem a aprovação de leis gerais de economia solidária para que uma nova cultura econômica prevaleça na sociedade.

Por fim / como a Campanha da Fraternidade recorre-se das palavras de Mateus em seu lema "vocês não podem servir a deus e ao dinheiro", / eu recorro também a este apóstolo para encerrar esta homenagem:

"Senhor, quando é que nos sucedeu ver-te com fome e alimentar-te com sede e dar-te de beber? Quando nos sucedeu ver-te estrangeiro e acolher-te nu e vestir-te? Quando é que nos sucedeu ver-te doente ou na prisão e irmos a ti? E o rei lhes responderá: Em verdade vos declaro todas as vezes que o fizestes a um destes mais pequenos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes."

Que Deus nos abençoe a todos. E parabéns aos promotores desta belíssima, oportuna e campanha.

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