Cadastra-se para receber notícias
MINHA RESPOSTA AO COLUNISTA DE ZERO HORA

18/02/2016 08:05

Tamanho da fonte

MINHA RESPOSTA AO COLUNISTA DE ZERO HORA

O jornalista David Coimbra, da Rádio Gaúcha e do jornal Zero Hora, entrevistou-me, ontem (17/2) no momento em que eu estava em São Paulo acompanhando o que deveria ter sido um depoimento de Lula ao Ministério Público. O depoimento não aconteceu porque o Conselho Nacional do MP, acatando uma representação do deputado Paulo Teixeira (PT/SP), determinou a suspensão da oitiva entendo que o procurador Cassio Roberto Conserino, autor do pedido, havia transgredido a Lei Orgânica do Ministério Público. A decisão do CNMP deu-se em função de o procurador ter antecipado às revista Veja que denunciaria Lula, o que caracterizaria um prejulgamento. Foi disso que falei na entrevista que foi avaliada, depois, pelo jornalista David e, também, alvo de comentários em sua coluna de hoje (18) em Zero Hora. Como o colunista utilizou expressões do tipo "...surpreendeu-me um pouco a falta de refinamento na (minha) argumentação. Afinal, trata-se de um deputado..." e disse, ainda, que espera que "...Lula não seja preso...", decidi produzir uma resposta. É esta que compartilho, abaixo. Ao final, fiz questão de oferecer um link da entrevista para que os leitores desse site possam tirar suas próprias conclusões.

David,

tua coluna no jornal Zero Hora, hoje, faz menção ao que consideras “falta de refinamento” na minha argumentação durante a entrevista que concedi, gentilmente, ontem (17/2), à Rádio Gaúcha. Vou te responder e tentarei ser muito sincero. Afinal, a ironia, recorrente na política e no cronismo, pode até vencer batalhas retóricas e inspirar piadas, mas, em geral, só faz parecer vencedor aquele a quem, na verdade, falta a coragem ou a possibilidade de dizer a verdade. Eu digo as minhas verdades e  estou certo de que tu, tanto ou mais do que eu, já deves ter ouvido verdadeiras pérolas de refinamento argumentativo que, no entanto, não passavam de defesas de bandidos.

Antes de prosseguir, acho oportuno dizer a quem ler esta resposta que, na minha opinião, adotaste uma postura arrivista na coluna. Pela razão, óbvia, de que eu fui entrevistado e saí do ar; já tu, além de teres me inquirido, tiveste a chance de comentar as minhas opiniões sem outro contraponto e, ainda, de utilizar o espaço privilegiado de um grande jornal para fazeres mais considerações a meu respeito. Daí que só me resta lutar contra um modelo de imprensa que permite o monopólio da opinião, ou tentar te responder no espaço que me couber. É o esforço que faço aqui.

Assim, quero honestamente dizer, David, que não foste intelectualmente honesto quando, para chegares à conclusão de que não fui refinado, reduziste minha fala à defesa cega de Lula como se eu o considerasse um santo. Eu o defendi, sim, com paixão sim, como ironizaste no comentário público pós-entrevista. O que chamas de paixão, no entanto, eu chamo de convicção. E a minha convicção é de que há uma evidente campanha que tenta difamar Lula. E que isto parte do incômodo com o fato de um homem iletrado ter feito, como presidente, o que muitos dos que o antecederam, e eram letrados, não fizeram. Eu vejo isso nos aeroportos, nas varandas gourmet, nos debates políticos e, infelizmente, de modo até explícito, na imprensa.

Então, quando alguém me pergunta sobre o sítio que não é do Lula, sobre o barco de lata ou sobre a torre da OI, eu repondo sempre: investigue-se. Foi o que fiz ontem, na entrevista. E acrescento: mas investiguem-se, também, a todos os demais sobre quem recaem suspeitas. Com os mesmos critérios, com a mesma cobertura de mídia e com a devida obediência às leis. Sem prejulgamento. Sem execração. Investigue-se, por exemplo, as três, quatro, cinco denúncias de delatores da Lava Jato que apontam Aécio Neves como beneficiário de dinheiro sujo. Investigue-se o tal palacete da família Marinho construído numa área de preservação ambiental. Investiguem-se os empresários sonegadores. De novo, foi o que fiz ontem, na entrevista mal avaliada por ti.

Sabes, David, se repito insistentemente isso a ponto de parecer que não refino meus argumentos, é porque tenho carregado comigo uma enorme sensação de injustiça. Por que não vejo equidade no tratamento. Bem ao contrário, o que vejo é a insinuação no lugar da prova, a ironia no lugar da análise, a seletividade no lugar da apuração. Voltemos ao Lula: investiga-se Lula, opina-se sobre Lula, execra-se Lula (um colega teu, aí da RBS, chegou a pedir que as pessoas cuspissem nele), sugere-se até, como tu o fizeste, que ele pode vir a ser preso, mesmo que contra ele não exista sequer uma acusação formal. Tu, no entanto, negas o que, para mim e para tantos outros brasileiros, alguns até bem letrados como Chico Buarque, Eric Nepomuceno, Leonardo Boff e outros, chega a ser cristalino: para reduzir as chances de Lula voltar ao poder, vale tudo, até mesmo fazer parecer que ele é culpado antes e mesmo que nem, efetivamente, o seja.

Não é suportável a dose de desfaçatez que se usa para tentar justificar essa deformação. Ah, David, dessa escassez de argumentos, refinados ou não, é que eu peço que tenhas dó. Não da minha modesta participação numa entrevista de rádio.

Eu e tu temos opiniões bem diferentes em relação ao Lula. Eu avalio como importantes algumas das conquistas que ele conduziu no país – e o exemplo que usei na entrevista, do padre que me procurou para dizer que já não fazia mais sepultamento de crianças por falta de comida, isso, David, para mim é muito relevante. Quando falo de Lula, são essas as coisas que me vêm à mente. E elas, na minha singela compreensão, são mais necessárias de serem apropriadas pela cidadania do que as acusações levianas que fazem a ele. Então, se opto por utilizar o espaço a mim concedido para falar sobre Lula, reitero: estamos falando de alguém que merece respeito.

Por fim, David, eu não sou um homem das letras. Sou um homem do campo, cresci entre agricultores. Mas aprendi que a injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos. Quando digo “mexeu com Lula, mexeu comigo”, o que estou dizendo é que é preciso reagir. À seletivização das culpas, aos moralistas de cuecas, aos interesses mal confessados e à sordidez da imprensa.

Elvino Bohn Gass

Deputado Federal do PT/RS

 

http://videos.clicrbs.com.br/rs/gaucha/audio/radio-gaucha/2016/02/ouca-entrevista-com-deputado-elvino-bohn-gass-timeline-gaucha/150570/

Compartilhe:

  • Facebook
  • Share on Twitter