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Artigo - O teatro de Cunha - penúltimo ato - por Elvino Bohn Gass

08/07/2016 04:37

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Artigo - O teatro de Cunha - penúltimo ato - por Elvino Bohn Gass

Elvino Bohn Gass

O que se viu na quinta-feira, 7 de julho, em Brasília, com Eduardo Cosentino da Cunha fingindo lágrimas no que seria seu ato de renúncia ao cargo mais importante que já ocupou – a Presidência da Câmara dos Deputados – não passou de uma cena exaustivamente ensaiada. Mais do que um político com expertise em corrupção, Cunha é um canastrão forjado em longos sermões para arrancar até os últimos tostões da boa-fé dos incautos.

Que ninguém se iluda. Não há um mínimo de grandeza no episódio. Por decisão do Supremo Tribunal Federal, Cunha já estava afastado da Presidência da Câmara. Daí que não lhe restava saída a não ser deixar oficialmente o protagonismo que, segundo a Justiça, não deveria ser exercido por um personagem tão suspeito. Sua influência foi considerada tão nefasta ao Poder Legislativo, que a proibição judicial já impedia Cunha até mesmo de caminhar pela Câmara! Então, o que se viu foi uma saída de cena depois que a cortina já estava fechada.

Mas isso não é tudo. O texto do teatrinho foi escrito a quatro (ou mais) mãos, as de Cunha e as de Temer. A redação final deu-se na noite do último dia 26 de junho, um domingo, à noite, quando os dois roteiristas do golpe se encontraram às escondidas no Palácio do Jaburu. A desfaçatez é tanta, que nenhum dos dois modificou a versão mesmo depois de todo mundo ficar sabendo que um deles mentira sobre a realização do encontro. Cunha, como sempre, seguiu negando a evidência. Já o golpista-presidente-interino arrumou uma “versão oficial”: “Tratamos da sucessão na Câmara”. Ora, a estas alturas, mais do que ninguém, Temer sabia que uma reunião com Cunha, fora da agenda oficial, só iria piorar sua já combalida imagem. Mas, assim mesmo, aceitou contracenar. Por quê? Primeiro, porque Cunha domina o texto, sabe de todos os podres da alta cúpula peemedebista e é o que se costuma chamar, na linguagem policial, tão adequada ao caso, de “arquivo vivo”. Uma eventual delação dele derrubaria a República inventada pelo impeachment sem crime. Segundo, porque Temer e Cunha estão juntos desde o princípio na trama que assaltou o Palácio do Planalto.

Sim, foi naquela noite fatídica que Temer sugeriu a Cunha que renunciasse, não ao mandato, porque isso lhe retiraria o foro privilegiado, mas à Presidência da Câmara. Já tratara de certificar-se: isso daria a ambos, a possibilidade de recomeçar o jogo de cargos e acalmaria os partidos aliados do golpe no Legislativo. Era preciso um cenário novo para o que eles gostariam que fosse o ato final: a salvação do mandato de Cunha. E a única chance de a representação não acabar assim, é a plateia ocupar o palco e protagonizar as cenas finais: a cassação e a cadeia.  Afinal, isso é tragédia, não comédia. O vilão não pode rir por último.

Deputado Federal/RS e Secretário Agrário Nacional do PT

Atualizando: este artigo foi escrito antes da quinta-feira (14 de julho), dia em que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara decidiu encerrar o trâmite sobre o pedido de cassação e encaminhar o assunto para o Plenário. Assim, a votação da cassação de Cunha deve acontecer nas primeiras sessões do mês de agosto, logo depois do recesso. Meu voto, por óbvio, será "SIM" à perda de mandato dele.


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