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Bohn Gass defende experiência “revolucionária” de energia limpa

05/07/2011 07:52

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Bohn Gass defende experiência “revolucionária” de energia limpa

Os agricultores familiares do Noroeste do Rio Grande do Sul poderão começar a produzir energia limpa (biogás) a partir de dejetos de animais. O defensor do projeto é o deputado Elvino Bohn Gass (PT-RS), que já visitou a experiência exitosa no Paraná, conversou com o governo Tarso Genro, universidade do estado e com os agricultores interessados no modelo.

"Essa experiência do biogás, transformado em energia, é altamente revolucionária. É um novo paradigma para a agricultura produzir a sua própria energia, reduzindo drasticamente o impacto ambiental de suas atividades", afirma o deputado. Nesta entrevista ao Informes ele explica o processo e defende incentivos para que o modelo possa também ser implantado em outras regiões do País onde haja produção animal (suínos, aves, bovinos).

Por Vânia Rodrigues

Informes - Qual vantagem de levar para o Rio Grande do Sul essa experiência de produção de energia limpa - biogás?
Bohn Gass - São três grandes elementos a serem considerados neste tema: Primeiro, o aspecto ambiental. A proposta é produzir energia limpa, sustentável, a partir da realidade de agricultores que vivem da bovinocultura, avicultura e suinocultura. Esses produtores, que atualmente enfrentam problemas ambientais com os dejetos desses animais, passaram a fazer um tratamento com os biodigestores, produzindo biogás. O segundo ponto é que ele permite ao agricultor organizar esse biogás na propriedade, tanto para a queima do gás para energia, como para toda a cadeia produtiva. Com isso, ele passa a ter economia. Ele não precisa mais, por exemplo, levar o seu milho a um secador terceirizado. Ele pode ter um no seu condomínio, com um custo bem menor. E quando esse produto for para o mercado, ele já vai com o valor agregado.

Informes - E a terceira vantagem?
Bohn Gass - A terceira vantagem, que talvez seja o elemento mais importante do paradigma desse processo é que todos esses produtores eram clientes, consumidores de energia elétrica. Com a produção de biogás eles são capazes de se sustentarem e ainda passam a ser fornecedores de energia. A ligação, a energia, não vem mais do poste de luz para a sua propriedade. Da sua propriedade os dejetos suínos ou bovinos são transformados em energia e jogados no sistema.

Informes - E como é desenvolvida essa experiência no Paraná ?
Bohn Gass - Essa experiência tem o apoio do Parque Tecnológico de Itaipu, que dá assessoramento aos produtores. É um projeto que conta com o acompanhamento de uma rede interligada com município, estado e União e empresas e setores da pesquisa como a Embrapa. São vários institutos que dão a garantia para que essa tecnologia seja reconhecida e possa ser utilizada, junto inclusive com a agricultura de baixo carbono (ABC), que é outro projeto em desenvolvimento. Então, por todos os ângulos, essa experiência do biógas, transformado em energia é altamente revolucionária. É um novo paradigma para a agricultura poder produzir a sua própria energia.

Informes - Na prática, como os dejetos viram energia?
Bohn Gass - Na experiência paranaense os dejetos da suinocultura, que sem tratamento adequado geram gás metano, um dos principais causadores do efeito estufa, são armazenados em biodigestores (grandes cápsulas onde ocorre a geração do biogás). Por meio de um gasoduto de aproximadamente 24 quilômetros e que chega às várias propriedades familiares do condomínio, o biogás é enviado diretamente para uma central que alimenta grandes geradores elétricos da Copel - Companhia Paranaense de Energia Elétrica. Em cada propriedade um relógio mede a quantidade de gás enviada ao sistema. Ao final de cada mês é feito um encontro de contas entre a quantidade de energia produzida e a consumida na propriedade. A diferença, geralmente a maior para o agricultor, é paga em dinheiro.

Informes - Esta ainda é uma experiência única do Paraná, ou já existem outros produzindo esse tipo de biogás no País?
Bohn Gass - Nós temos pequenos focos de experiências neste sentido. Mas o condomínio do Paraná é o mais desenvolvido. A mais completa e que dialoga com o conceito de geração distribuída, geração compartilhada entre produtor, concessionária, cooperativas e usinas. Com isso estão criando uma produção diversificada. Eles não dependem somente da queima do petróleo, da hidroenergia ou da energia eólica. A biomassa também está produzindo energia.

Informes - Podemos dizer que já se trata de uma mudança na nossa matriz energética?
Bohn Gass - É uma experiência inovadora, uma base para avançarmos na nossa matriz energética com produção de energias limpas, energias renováveis e que hoje ainda tem custos mais elevados, porque ainda não estão massificados. Mas essa é a grande tarefa do ponto de vista da política pública. Nós massificarmos e termos equipamentos para cada vez mais baratos para que essa produção possa se amplificar.

Informes - E de que forma essa experiência do Paraná pode ir para o Rio Grande do Sul, como o senhor defende?
Bohn Gass - Já estou em contato com produtores da região noroeste do Rio Grande do Sul, especialmente da cidade de Santa Rosa, que já mostraram interesse no projeto. Nós, inclusive, visitamos o condomínio no Paraná. Estamos em contato também com o governo do estado. Queremos que o governo Tarso Genro, a partir da sua Agência de Desenvolvimento, dos seus órgãos financeiros, tenha disposição de amplificar essa experiência de energia renovável, com impactos ambientais menores. Acredito que cabe aos governos estaduais se somar aos esforços do governo federal para que o Brasil venha a ser um divulgador e um usuário desta modalidade de energia limpa.

Informes - De que forma o senhor pretende fazer este trabalho integrado entre os governos?
Bohn Gass - Já conversei com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul para que seja feito um plano de cooperação com o Parque Tecnológico de Itaipu, para utilizarmos os cursos e a capacitação para lideranças das prefeituras e cooperativas desta macrorregião. Estamos organizando uma audiência pública no estado, em agosto, para difundirmos a ideia, inclusive dando condições para aqueles grupos que já querem, individualmente ou em grupo, desenvolver esse tipo de energia, que eles possam iniciar o processo. Estamos também em contato com o governo estadual para que essa experiência possa ser massificada em todo o Rio Grande do Sul.

Informes - E de que forma o Legislativo pode ajudar na divulgação e no incentivo desta experiência para que o Brasil possa cada vez mais trabalhar com energias limpas?
Bohn Gass - Podemos colaborar por meio da divulgação, como estamos fazendo agora, por meio do tensionamento e de sugestões juntos aos governos federal, estadual e municipal. Precisamos também mexer na legislação para que no Brasil, a exemplo do que já acontece na Europa, possamos ter editais específicos para a compra de energia renováveis. Modelos de editais que valorizem e pague um preço diferenciado e melhor às energias limpas.

Informes - E essa remuneração maior não vai encarecer a energia final do consumidor?
Bohn Gass - A nossa ideia é de que não chegue mais cara para o consumidor. O que estamos defendendo é um equilíbrio na produção de energia. Hoje o modal de pagamento em vigor no Brasil é o mesmo para compra de energia gerada por hidroelétrica ou por eólica. Isso dificulta a produção das energias renováveis que tem uma tecnologia de produção mais cara. O que defendemos é que se abra um edital específico para as energias limpas - biogás, biomassa, dos dejetos dos animais - para que eles possam competir mais, produzir mais e em um futuro próximo poder, inclusive reduzir esses custos. A sociedade também precisa reconhecer que investindo em energias renováveis estaremos reduzindo gastos públicos com saúde, economizando nos controles sociais, controles ambientais, e nos socorros em catástrofes climáticas.

Informes - Então a aposta é em uma energia limpa é autossustentável ?
Bohn Gass - Sim, queremos cada vez mais investir na produção de energia limpa e autossustentável. Nesse modelo do Paraná os agricultores estarão produzindo energia para si e para os outros. Ai eles terão renda dupla. Terão economia porque deixarão de compra, e aumento ganhos porque poderá vender o que sobrar. Esta é a grande inovação. E assim como o governo brasileiro estimula com prêmio aqueles que produzem biocombustível, com o selo e incentivos para o setor com redução de impostos, nós defendemos também que haja estímulo semelhante aos que produzem as energias limpas.

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