Cadastra-se para receber notícias
Dilma (parte II): "São os países emergentes que não deixam a taxa de crescimento mundial cair"

25/08/2011 05:49

Tamanho da fonte

Dilma (parte II): "São os países emergentes que não deixam a taxa de crescimento mundial cair"

 - No último dia 12 de agosto, publicamos a primeira parte da entrevista que a presidenta Dilma concedeu à revista Carta Maior (Luiz Gonzaga Belluzzo, Mino Carta e Sergio Lirio). Hoje, estamos publicando a segunda parte. Nesta, Dilma fala da importância do Brasil nos BRICs e dos próprios BRICs;  de como o Brasil deve se posicionar diante das crises da Europa e dos EUA, de Copa do Mundo, da sua obstinada decisão de acabar com a pobreza extrema e da serenidade que alcançou: “Sou alegre, não sou deprimida. Depois de uma certa idade, passei a me contentar com algumas poucas coisas,” sintetiza a primeira mulher presidenta do Brasil.

Carta Capital: A senhora diria que a Europa e os Estados Unidos estão em um processo de transição e que não se avança mais por conta de certos movimentos radicais? Nos EUA, o Tea Party, por exemplo?

Dilma: Acho a situação nos Estados Unidos é um exemplo a não ser seguido. Essa discussão sobre o aumento do teto da dívida deu-se em uma disputa absolutamente paroquial, que compromete o papel do país no mundo. Como uma economia que tem a moeda reserva de valor, que tem responsabilidades perante o mundo, não pode fazer política fiscal de recuperação da sua economia? O que sobrou para eles: inundar o planeta de dólares, transferir parte de seu ajuste para os mercados emergentes. Isso não vai levar a boa coisa. Achei que, a partir do G-20, haveria outro tipo de acerto, de cooperação. Mas hoje o papel de cada um não está adequado às necessidades. Existe todo um aparato institucional, o próprio G-20, o fórum dos ministros... Todo mundo aprendeu o que deve fazer. O nosso Banco Central, por exemplo, está cheio de instrumentos para analisar e agir. Mas de que adianta tudo, esse saber, a experiência, se em uma questão tão paroquial os dirigentes da maior economia do mundo fazem o que fizeram? Se uma agência de classificação de risco tem a mesma inconsequência do Tea Party?


CC: Desde o pós-Guerra muitos advertiram para o risco de a moeda reserva ser administrada por um único país.

DR: Temos todo o direito de nos preocupar, pois chegamos aos 350 bilhões de dólares em reservas e somos hoje o quarto maior credor dos Estados Unidos. Não dá para ficar tranquilo diante de uma política totalmente inconsequente. Lembro perfeitamente de suas aulas, Belluzzo, sobre a necessidade de uma moeda global chamada Bancor. Mas essa possibilidade não está desenhada no momento. No cenário internacional, não se pode prescindir dos Estados Unidos e da Europa. São elementos fundamentais no cenário. Por isso precisamos de uma solução para a crise deles, para que o resto do mundo escape. Há, de qualquer forma, outra perspectiva: os emergentes correm por fora, naquilo que podem, pois, nem somos uma ilha nem estamos completamente imunes. Temos de perceber, porém, que é necessário tocar a vida. O que seria correr por fora? Temos de continuar a crescer, tornar nosso mercado interno cada vez mais sólido, continuar em busca de informação e de parcerias.

CC: Como?

DR: Uma das coisas importantes que estão acontecendo na América Latina é que hoje se entende melhor a necessidade da Unasul (o conselho político dos países). Recentemente, tivemos uma reunião especial da Unasul em Lima, durante a posse do Ollanta Humala. Naquela oportunidade reuniram-se os principais países. Por sugestão do Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, discutimos uma posição conjunta sobre o fluxo absurdo de dólares que tem nos afetado e uma estratégia comum para lidar com a questão, do ponto de vista financeiro e comercial. Considero algo extremamente relevante. Antes, nos anos 1990 e em parte dos anos 2000, a alternativa era fazer acordos de livre comércio com os Estados Unidos, na esperança de encontrar a "felicidade". Mas hoje, diante da postura cada vez mais conservadora dos republicanos, o que se vê é que os EUA não aprovam os tratados de livre comércio. Os países da região mais alinhados com o pensamento norte-americano perceberam progressivamente que as oportunidades de integração estavam em outro lugar, que era preciso olhar para a América Latina. Atualmente, somos países com taxas de crescimento expressivas, com enorme potencial de integração e que podemos aproveitar, neste período, essas vantagens em benefício comum. E o mais interessante é que o debate não partiu de nós.

CC: Por quê?

DR: Por que poderiam falar assim: "Lá vem esse pessoal radical". Mas quem levantou a questão foi um governo considerado conservador, mas que não sei se é tão conservador assim. Juan Manuel Santos é comprometido com sua nação, seu povo. Chamo isso de correr a nossa corrida. Em outra ponta, precisamos aprofundar nossas relações com os BRICs. Ninguém é ingênuo de supor, porque também já olharam para nós com olhares muito tortos, que essa relação do Brasil com a China, a índia, a Rússia e a África do Sul é um relação secundária. Não é não. E uma relação muito importante, porque o posicionamento dos BRICs hoje é estratégico para o mundo, pois quem segura a taxa de crescimento mundial e não deixa a peteca cair são os emergentes.

CC: Nossa relação com a China é ambígua. Em dados momentos parece virtuosa, em outros...


DR: Eu diria complexa, como todas as relações. No caso da China, estamos diante da possibilidade de ter uma relação mais intensa, comercial e financeira, e até a utilização das nossas moedas como denominadores das nossas transações comerciais. Acredito que temos de construir cada vez mais, e passo a passo, a nossa relação com a China. Em determinadas situações, temos de dizer para os chineses: "Não é assim que queremos". Aliás, já dissemos isso: "Vocês são muito bem-vindos ao Brasil para fazerem o investimento que acharem oportuno". Exemplo: a indústria automobilística, vocês são muito bem-vindos, só tem um pequeno problema, nós não queremos CKD (quando todas as peças são enviadas de outros países e o carro é apenas montado na fábrica, sem uso de uma cadeia produtiva). Como eles também não querem, acho que entenderam. O Brasil quer inovação, parceria e cadeias produtivas. Outro ponto com os chineses: o Brasil acha muito importante o que tem. Produzimos grande quantidade de alimentos, temos muitos minérios, há o petróleo. Mas não devemos ser encarados como uma nação "agro-mineiro-energético-exportadora". Somos um pouco, ou melhor dizendo, bem mais complexos. Se quiserem uma parceria conosco, é preciso ter ciência, tecnologia e inovação.

CC: A senhora poderia ser mais específica?

DR: Satélites, por exemplo. Queremos uma parceria em satélites e em outras áreas estratégicas. Acho importante a China ter acesso a nossos produtos, mas queremos diversificar nossa pauta de exportação. Agora, sabemos que nós é que temos de exigir isso e não esperar que os chineses nos concedam. Nós é que temos de verificar se em uma fábrica eles não estão usando o método CKD ou se existe algum tipo de triangulação entre países para que determinados produtos escapem das barreiras antidumping. Mas quero dizer uma coisa: nunca, nunca tinha visto um espaço tão grande para essa relação diferenciada. Não atribuo ao meu governo, mas a iniciativas anteriores. Durante o governo Lula, participei de três viagens à China, o presidente deve ter ido em mais uma, ao menos. Conseguimos estabelecer uma relação de respeito. Mas, como disse, somos nós que temos de nos fazer respeitar. Tem aquela visão, meio paternalista, de que os "chineses fazem isso ou aquilo" no Brasil. Fazem porque deixamos. Basta não deixar. Eles estão na deles. Temos de ficar na nossa.

CC: E o complexo de vira-lata, ao qual Celso Amorim se referiu em seu último artigo em CartaCapital?

DR: A China tem uma avaliação do papel do Brasil, nos vê como um player importante, de igual para igual. Isso não garante nada, nós é que temos de garantir. Mas é um ponto importante.

CC: As exigências da Fifa para a realização de uma Copa do Mundo de Futebol não são exageradas?

DR: Não tenho condição de lhe dizer se são ou não. Mas o Ministério dos Esportes está apto a afirmar: "Vocês não podem fazer assim, vocês têm de fazer assado". O que está na nossa competência? Dizer onde colocamos e onde não colocamos dinheiro. Geralmente, vamos emprestar para os governos estaduais.

CC: Na Copa de 2006, por exemplo, os alemães não aceitaram certas imposições...

DR: Não poderemos garantir a quantidade de hotéis que eles supõem. Na pauta está o financiamento. E mais fácil no Nordeste, no Rio de Janeiro. Nas cidades que têm porto, a proposta é fazer reformas para que se possa ancorar navios. O cara fica no navio, sai, vai ao estádio, vê o jogo, comemora, conversa, faz o que quiser, chora, sofre, arranca os cabelos, e volta ao navio. Estamos concluindo uma Lei da Copa que vai regulamentar o que o governo vai fazer. E, outra coisa, respeitamos a Fifa e a CBF, mas nossa cara no exterior vai ser o Pelé, nosso embaixador honorário.

CC: A senhora diz pretender tirar 16 milhões de cidadãos da miséria e melhorar a saúde. Nesse quadro, como fica a oferta de saneamento básico?

DR: O governo federal não tem como fazer as obras diretamente. Colocamos à disposição 40 bilhões de reais. Para quem? Demos preferência às grandes concentrações populacionais.
O que acontece é que são os estados que executam. Aqueles que possuem companhias de saneamento executam com mais eficácia. Quem não tem faz com menos eficiência. Os municípios às vezes não possuem recursos técnicos, mas a lei atribui a eles o papel de executor. Por isso passamos a destinar dinheiro para que as cidades façam os projetos. Mas conseguimos tocar algumas obras muito importantes, pensando não só no saneamento, mas na gestão completa da água. Vamos construir, por exemplo, 750 mil cisternas no Semiárido nordestino, onde vivem 20 milhões de brasileiros. Só neste ano vamos construir 300 mil. Em paralelo, estamos erguendo barragens para que se possa usar no plantio e na produção. Vamos começar os ramais que serão abastecidos pela transposição do Rio São Francisco. Uma parte ficará pronta no ano que vem. Devemos acabar tudo em 2015. É o nosso cronograma.

CC: A senhora está satisfeita, feliz?

DR: Sou alegre, não sou deprimida. Depois de uma certa idade, passei a me contentar com algumas poucas coisas. Se eu puder ler... Hoje me lembrei que tinha ganhado um livro sobre um grupo de sete pintores canadenses. Tenho a impressão de que viveram no fim do século XIX, início do XX. Obras muito bonitas (pede ao secretário particular que busque o livro). Ganhei do primeiro-ministro do Canadá. Olhem que beleza.

Compartilhe:

  • Facebook
  • Share on Twitter